Bar do Rafa

Ensaios, críticas, reflexões, contos, crônicas, poesias... Discuções artísticas: literárias, cinematográficas, cênicas, entre outras.

Bar do Rafa

Ensaios, críticas, reflexões, contos, crônicas, poesias... Discuções artísticas: literárias, cinematográficas, cênicas, entre outras.
<  Junho 2008  >
S T Q Q S S D
            1
2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15
16 17 18 19 20 21 22
23 24 25 26 27 28 29
30
Buscar
Receba os posts
Terra Blog

27.03.08

O pequenino do Natal

categorias: Narrativa

"O pequenino do Natal" é um conto que escrevi especialmente para a Antologia "Os mais belos textos de Natal", da Editora CBjE. Além de ter sido publicado na antologia, o conto foi o mais lido no site Recanto das Letras (http://www.recantodasletras.com.br), durante as semanas de publicações natalinas. Como este conto é um pouco comprido, o publicarei em duas partes, sendo que a segunda parte segue no post seguinte a este.

 

"O pequenino do Natal" - Primeira Parte

Era noite; uma noite muito fria, por sinal, diferente das outras noites que aquela cidade tropical passara. Em um canto, perdido na escuridão, encostado num muro, havia um pacote de pano grande o suficiente para abrigar uma criança; e era exatamente isso o que o pacote abrigava, um garoto tão novinho, que tinha idade apenas para saber falar. Tremia tanto perdido naqueles panos. Dormia debaixo da noite estrelada.
Ninguém havia falado para aquele pobre garoto que a noite era de alegria, aquela era a noite de Natal. Todas as pessoas comemoravam suas festas, unidos com suas famílias, agasalhados com suas roupas e satisfeitos com a fartura de comida que serviam. Era alegria para todo mundo, menos para o pobre menino que tremia, sem sonhos, na calçada daquela rua deserta.
Os olhos do garoto deram três piscadelas quando um carro passou veloz pela rua. Provavelmente era um pai desesperado em chegar a tempo para a ceia de Natal com sua família. Não, não foi isso o que o garoto pensou, ele nem mesmo deu tanta importância ao carro veloz, o que fez foi se ajeitar na trouxa, uma de suas pernas estava para fora, congelando com o frio desigual que fazia. Com a nuca encostada no chão, olhou para o céu, olhou para as estrelas brilhantes lá no alto. Não imaginou o que eram e nem para que serviam aqueles pontinhos iluminados, apenas abriu um sorriso para elas, saciando tamanha beleza.
Uma estrela lá no alto chamou-lhe a atenção, era uma estrela grande e brilhante, parecia, até, que não era estrela, de tão enorme. Tinha a mesma cor que todas as outras, mas não piscava como elas. O menino, que estava com as pernas encolhidas, cobriu o queixo por causa do frio e continuou a olhar aquela estrela. Ela era linda!
Ficou tanto tempo olhando-a que não percebeu algo estranho: ela estava se mexendo. Mexia-se tão lentamente que realmente não era perceptível, só reparou que se movia quando teve que virar a cabeça para continuar acompanhando-a.
Ela está ficando maior. – sibilou por entre os dentes, o garoto, começando a ficar com medo da estrela. Espremeu-se mais dentro da trouxa e continuou a olhar a estrela
A velocidade da estrela também aumentava. Parecia que esta estava se movendo na direção do garoto. E foi isso o que o garoto imaginou, por isso virou o rosto para o lado e o escondeu entre o pano preso às mãos.
Não foi muito a coragem, mas sim a curiosidade que o fez olhar novamente para o céu, em busca da estrela. O que viu fez ele tremer, não de frio e sim de medo. A estrela estava com o tamanho de um carro e caía do céu. Estava tão perto da rua que não conseguia mais tirar os olhos dela. “Aquilo não é uma estrela”, pensou o garoto.
Não levou muito tempo para a bola de luz se aproximar da rua e fazer um pouso desses de avião, bem suave. O garoto já não estava mais deitado, estava, agora, sentado, com as costas na parede, abraçado ao cobertor, querendo entender o que era aquilo. O que era aquela bola de luz que o cegava?
As luzes se apagaram.
Quando os olhos do menino se acostumaram novamente com a iluminação dos postes, ele viu o que havia na sua frente. Era um homem bem gordo, sentado num veículo que ele nunca vira antes, parecia uma carroça sem rodas, no lugar delas haviam duas grandes tábuas; uma carroça que não era puxada por cavalos e, sim, por uns animais bem estranhos, com chifres em forma de galhos.
O homem gordo desceu daquele veículo estranho e seguiu na direção do garoto. O menino ainda estava todo encolhido, mas ficara bem mais aliviado em saber que era um homem e não uma nave espacial ou coisa parecida (se é que ele já havia ouvido falar nessas coisas). O homem agachou-se em frente ao garoto e trocou olhares com o pobrezinho. Tinha uma barba comprida e olhos cativantes, que deixaram o garoto bem mais calmo.
Como é seu nome? – perguntou o homem.
Eu não tenho nome. – o garoto respondeu com a voz bem baixinha, o que fez o homem se aproximar mais para poder ouvir. O menino começou a sentir um agradável calor e soltou a coberta, revelando um corpinho magro dentro de uma regata rasgada; dois bracinhos miúdos se estendiam daquele corpo frágil.
Você sabe quem eu sou? – perguntou o mais velho.
Não sei, não.
Eu sou o Papai Noel, você nunca ouviu falar de mim?
Não.
Como é possível? Todos neste mundo já ouviram falar de mim. – o velho abriu um largo sorriso, parecia intrigado com aquela figura parada na sua frente. – Qual o presente que você deseja ganhar?
O garoto apenas olhou o velho, seu rosto magro estava assustado. Era para ele desejar presentes? Nunca ninguém havia lhe falado isso.
Pobre garoto, continuou o velho – alguma vez você já andou de bicicleta ou já brincou com carrinhos de brinquedo?
O garoto abanou a cabeça negativamente.
O homem ficou parado olhando o menino por um tempo.
Você tem sonhos, menino?
Um ronco saiu da garganta do garoto e uma lágrima escorreu-lhe o rosto. A resposta saiu quase inaudível:
Sonho com um pai e uma mãe, toda noite.
O velho nada falou, ficou imóvel um instante e levantou-se, puxando uma das mãos do menino. Sem a trouxa, revelaram-se duas perninhas tortas, magras como os braços, o calção curto chamava a atenção para os joelhos bem definidos naquelas perninhas delicadas. Os pés, descalços, pareciam que iriam quebrar com cada passo que davam em direção à estranha carroça.
O Papai Noel ergueu o menino pelos braços e colocou-o sentado dentro da carroça. Lá havia um banco muito confortável. O velho subiu logo em seguida, sentando-se ao lado do menino. Pegou as rédeas.
Segure-se firme! – exclamou o homem barbudo.
O menino agarrou o banco com as pequenas mãozinhas.
Vamos!
Luzes acenderam como se o sol tivesse nascido, tudo ficou claro como o dia. Os cavalos com galhos na cabeça começaram a puxar a carroça, deram um salto e ela começou a voar como mágica. Voou tão rápido quanto um foguete.
Sobrevoaram milhares de casas iluminadas. O garoto, inclinado na beirada da carroça, olhava para baixo maravilhado.
São estrelas lá embaixo? – perguntou o menino.
Não, são as luzes das casas.

Continua no post abaixo:

  • criado por  rmarchesin criado por rmarchesin
  • Postado em 17:57:52
Nenhum comentário
Comente este post:




Seu e-mail não será mostrado neste site.




tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, a, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
URLs, e-mail's, AIM e ICQs serão convertidos automaticamente.