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Terra Blog

03.02.08

O Mestre das Aranhas

categorias: Narrativa

Este conto foi meu primeiro conto publicado em livro. Foi publicado na antologia Contos Fantásticos Volume 4, pela Editora CBJE e selo BrLetras. Também foi utilizado em didática com alunos do Ensino Fundamental do Colégio Nossa Senhora do Carmo em São Paulo. Além de ser classificado para publicação pela Editora CBJE, foi, também, classificado pela Andross Editora, no entanto não foi publicado pela mesma por motivos terceiros, no entanto agradeço ao editor Edson Rossato a oportunidade oferecida.

O Mestre das Aranhas

Caio era um garoto muito bagunceiro, seu quarto era um caos, roupas espalhadas pelo chão, a cama sempre desarrumada. Havia tanta sujeira em seu quarto que muitos animais começaram a fazer dele sua casa. Os ratos faziam seus ninhos nas roupas jogadas no chão, as formigas estavam espalhadas por todos os cantos, as baratas corriam pelo quarto a vontade. Mas o que mais havia lá era aranhas, havia aranhas grandes, pequenas, aranhas de todos os tipos.
Um dia Caio estava indo até seu armário guarda-roupas procurar por novas camisas. Foi tropeçando em cuecas, bermudas, ratos, livros e em outras coisas mais. Na maçaneta da porta do armário havia uma aranha que lhe impedia de abrir a porta, estava com medo de tocar na aranha e levar uma picada, sabia que não existia cura para veneno desses aracnídeos. Agachou e pegou um sapato para acertar a aranha, mas com pena desse minúsculo animal resolveu pedir licença para a aranha. Sorriu em ver que a aranha o obedeceu saindo da maçaneta. “Claro que era apenas coincidência” pensou Caio. Na blusa que pegou no armário estava estampado a foto do herói dos quadrinhos Homem Aranha.
Fechou a porta, a pequena aranha ainda estava por ali, como que por brincadeira, Caio falou:
- Pode voltar. – E assim fez a aranha, voltou para a maçaneta.
Caio falou alto:
- Sou o mestre das aranhas – ainda acreditava ser uma grande coincidência. – Venha até esse ponto – ordenou colocando o dedo numa parte da porta. A aranha seguiu até o ponto. Um enorme sorriso surgiu no rosto de Caio ainda não acreditava que poderia controlar aquela minúsculo animal.
Por brincadeira falou em voz alta:
- Aranhas venham até meus pés!
Aconteceu que milhares de aranhas começaram a surgir das roupas estendidas no chão, dos móveis, até mesmo a aranha que ele mandara sair da maçaneta se misturou entre as milhares, e seguiram até seus pés.
Caio ordenou-as em fileiras, separou-as por espécie, ordenou-as tarefas até ter certeza de que possuía um controle sobre elas. Fez enormes frases com as teias delas, passou dias fazendo as aranhas seguí-lo. Onde ia, controlava todas as aranhas.
Um dia, quando andava por uma praça, um homem vestido com um casaco todo sujo e com um gorro que cobria o rosto, tentou assaltá-lo, tentou levar a carteira, o relógio e uma mochila que carregava nas costas. Caio, por desespero, gritou:
- Aranhas!, ataquem esse ladrão!
O ladrão olhou surpreso para o rosto de Caio e começou a rir do que ele havia dito. Pedir ajuda à aranhas, que estranho. Quando o homem com a jaqueta virou, haviam milhares de aranhas seguindo em sua direção.
- Moleque, como você fez isso? – gritou desesperado e começou a correr pisando nas aranhas, mas eram tantas que começaram a subir em suas pernas. Caiu no chão. Logo cobriram o corpo do homem todo.
Caio ordenou:
- Saiam de cima dele! – e assim fizeram.
O homem estava inchado, com bolhas enormes e pretas, o pus escorria pelo corpo todo. Estava morto.
Caio sentiu uma culpa enorme, mas ainda mais enorme foi sua sensação de poder.
Os dias passaram e Caio começou a ser possuído pelo poder. Passou a usar as aranhas para conseguir tudo, como foi um caso na escola em que estudava. Um garoto, grande e forte, sempre o pegava para dar uns bons sopapos. Numa manhã de aula, Caio viu o garoto vindo em sua direção, chamou uma aranha que estava no bolso de sua camisa, agachou, colocou-a no chão e ordenou que ela o picasse. Quando o garoto o segurou pela blusa, a aranha subiu pelo tênis e entrou na meia do rapaz. Primeiro foi como uma agulhada, mas alguns segundos depois o garoto estava estendido no chão, sem o tênis e a meia, o pé inchado e roxo, gritava de dor. Uma semana depois Caio recebeu a notícia de que aquele garoto havia perdido o pé, a mãe do garoto foi até a escola apresentar a justificativa pela falta, parece que ele levou picada de uma Aranha Marrom, a mais venenosa da região, foi muita sorte dele ter dado apenas gangrena no pé, era quase certa a morte após a picada de uma aranha daquela espécie.
Não parou por aí, Caio começou a ameaçar pessoas com as aranhas, todos o chamavam de maluco por andar com aranhas no bolso. Passou a roubar, espalhava aranhas nas lojas que possuíam algo de seu desejo. Isso foi muito pouco. Nem mesmo remorso teve quando viu um cachorro ser devorado pelas aranhas, na verdade riu do que fazia, parecia que seu coração havia virado uma pedra ou, mesmo, era o coração de um aracnídeo.
Num dia desses viu na televisão um filme de um homem que virava uma aranha gigante após ser picado por uma. A idéia que teve... O poder lhe subiu definitivamente à mente, não bastava ter o controle, precisava ser uma, ser forte, ser muito forte. Parou no quarto, ordenou:
- Todas as aranhas que escutam minhas palavras!, subam em mim! – e milhões de aranhas surgiram, entraram no quarto, subiram em Caio. Ele, em pé, ergueu os braços e foi coberto por milhares de aranhas andando sobre seu corpo. – Piquem-me! – gritou. Caiu no chão.
Do lado de fora da casa havia um enorme alvoroço, as pessoas estavam na rua, assustadas. Milhares de aranhas seguiam em direção à casa de Caio. Não... não só naquela rua, em todas as ruas da cidade, do país, do mundo, todas as aranhas do mundo começaram a seguir na mesma direção, seguiram na direção da casa de Caio, mais parecia um fenômeno biológico inexplicável. De repente todas pararam nos lugares em que estavam e ali ficaram por dias, sendo mortas pelos humanos com dedetizadores. Um grande desequilíbrio ecológico ocorreu, as aranhas quase foram extintas.

***

Um dia depois da última ordem de Caio:
- Pobre menino, estava passando por uma fase tão difícil, estava em enorme depressão depois da morte dos pais, não tinha ninguém para cuidar dele. – disse o padeiro da rua em que Caio morava – Naquela casa, sozinho. Eu sempre levava pão e leite para ele. Ele tentou se recuperar, tentou ir a escola... uma semana, mas não conseguiu. O pior foi quando ele chegou na minha padaria e me ameaçou com uma aranha.
- Como foi que você encontrou ele? – perguntou a repórter do jornal nacional.
- As aranhas seguiam para a casa dele. Entrei na casa, milhares de aranhas, assim como do lado de fora, fui com um rodo retirando-as do caminho, mas eram muitas. Cheguei ao quarto, ali não tinham apenas milhares de aranhas, havia muito mais e logo ali na frente, o menino, coberto com um cobertor de aranhas. Com o rodo retirei as aranhas de seu corpo. Peguei o garoto e levei até a rua, ele ainda estava vivo. Foi quando cai no chão, havia levado picadas nos braços. Ele morreu a caminho do hospital, aí as aranhas pararam, imóveis.
- Como o senhor sobreviveu?
- Como tenho próteses no lugar de pernas, não levei nenhuma picada nas pernas. Os médicos me disseram que foi um milagre, mas como pode ver, não tenho mais os braços. – respirou alguns instantes – talvez também tenha sido um milagre esse menino...

  • criado por  rmarchesin criado por rmarchesin
  • Postado em 19:12:05
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